“Numa pequena aldeia ao sul do Japão, vivia um velho sábio, que todas as manhãs caminhava até a beira de um pequeno riacho, e contemplava os pequeninos peixes que ali nadavam, lhes alimentava com punhados de arroz, e por vezes conversava com eles… ficava ali por horas, e depois se sentava embaixo de uma pequena árvore, e meditava o resto do dia…

Todos os dias, o velho sábio cuidava dos peixes, e já conhecia as aves que viviam por ali, as flores do campo que se abriam, e celebrava a vida com enorme beleza e simplicidade.

Um dia, ele viu escondido atrás de uma pedra, um jovem chorando… ele se aproximou, e muito delicadamente se sentou próximo do rapaz e esperou que ele se acalmasse…
O rapaz, muito triste, soluçava, e por horas ficou ali mergulhado em sua dor…

O sábio então, foi até o rio, e trouxe um pouco de água pura para ele beber.
O jovem agradeceu, e ainda com os olhos cheios de dor e lágrimas, bebeu a água, e se acalmou.

O sábio se sentou embaixo da árvore como fazia todos os dias, e o rapaz vendo o sábio ali imóvel em meditação se aproximou e lhe perguntou:

Quem é você?-  perguntou ele?
-Sou a vida, respondeu o sábio.

Qual o seu nome?
– Nenhum nome e todos os nomes, disse o sábio.

Como posso lhe chamar então?
-Como quiser…

O que é isso que está fazendo aí embaixo dessa árvore? Dormindo?
– Estou acordando…

Estou triste, disse o rapaz…
-Sim, vi que está experimentando a tristeza.

Meu irmão morreu hoje. Gostava muito dele, agora estou sozinho…
– A morte nunca existiu. Só a vida existe… disse o sábio sem se mexer. Ninguém nunca está sozinho. A solidão não é real.

Como pode, vi meu irmão morto.. todos choraram por ele ter morrido.. disse confuso o rapaz.

Viram um corpo morto, mas aquele corpo não era seu irmão, aquele corpo era uma aparência que a vida experimentava por um tempo… aquilo que seu irmão é de verdade, você também é, eu e tudo o mais também é…
Só a Vida é real. E a Vida é eterna…

O jovem olhava o sábio sem compreender, mas algo em seu coração se acalmou, e ele sentiu uma imensa vontade de permanecer ali aos pés daquele homem.. e também experimentar aquela serenidade, aquela paz, que o sábio sentia…

Quer dizer que o corpo do meu irmão morreu, mas meu irmão não morreu?
Sim. Porque também nunca nasceu.
O corpo tem um tempo útil, surge no oceano da Consciência e se dissolve … mas seu irmão nunca foi o corpo, seu irmão estava vivendo na aparência daquele corpo, seu irmão é a Vida, assim como você…
.
Você vê este riacho? Você vê esta árvore, estas nuvens no céu, estes peixinhos, aqueles pássaros voando ao longe? Vida, vida acontecendo, vivendo, vida, vida, vida…

Tudo o que existe é a Vida. As formas que ela cria, são infinitas, duram um tempo e se desfazem, mas a Vida, jamais nasceu, jamais morre… só a Vida permanece… e ‘você’ é Ela….

Conta-se que o jovem a partir daquele dia se tornou discípulo do velho sábio, e ele mesmo se tornou um grande sábio, e peregrinou levando luz e sabedoria, por várias regiões do Japão..”
Conto Zen (autor desconhecido)

Anúncios